[Reflexão] 130 anos da abolição da escravatura

13 May 2018

Estamos prestes a relembrar os 130 anos da abolição da escravatura no Brasil, digo relembrar, porque mesmo depois de um século não há nenhum motivo para comemorar. As consequências da escravatura ainda é presente e real, mesmo que amplamente ignorada, mas um corte que não fecha e dificilmente irá fechar se não houver reais intervenções para que o racismo seja verdadeiramente combatido.

A ironia já ocorre no próprio processo de abolição, Os senhores de engenho, que tanto enriqueceram com o trabalho forçado dos escravos, após a abolição contraram os imigrantes, mas não aqueles negros libertos, diante dessa situação, sem dinheiro, moradia e ainda por cima com o estigma de perteceram a uma sub classe, considerada sem alma, sem sentimentos, sem humanidade. Os negros, agora livres, foram forçados viver na periferia das cidades.

Parece coincidência que hoje ainda 75% dos mais pobres no Brasil são negros, mesmo estes sendo 54% da população; a morte de 23 mil jovens negros por ano; a crise econômica ter afetado mais essa parcela da população; a falta de professores negros nas universidades e escolas; a falta de atores que protagonizem novelas, filmes e seriados, mesmo quando esses são ambientados em estados onde marjoritariamente a população é negra, como o caso da próxima na novela da maior emissora de TV do país?! Parece coincidência, mas não é. O processo histórico, desde o momento que os negros foram tirados a força de seus países e trazidos em navios negreiros para trabalharem como escravos, que passa por um processo de abolição para “Inglês ver”, onde nenhuma política pública realmente tentou resolver o problema de maneira que houvesse sim uma sociedade igualitária, e chega até nós hoje, diante desse quadro onde relembramos que faz mais de um século e nada realmente mudou.

Da mesma forma que aqueles senhores de engenho ignoraram o problema que foram sim por eles causados, hoje vemos o mesmo movimento de esquecimento desse processo, e que tenta ao máximo se livrar da responsabilidade de comprar para si, a necessidade de uma real intervenção no combate ao racismo, no combate a desigualdade, que é sim preciso um processo de reparação, onde a cultura negra seja respeitada, onde a pessoa negra seja respeitada, em que a discriminação seja fortemente combatida, politicas públicas que realmente seja eficaz, mas acima de tudo que cada um nós possamos perceber o preconceito implicito que há em nós e façamos esse combate nas pequenas coisas, a consciência é e deve ser de todos nós.

Esperamos poder comemorar um dia, mas hoje há só motivos para lamentar a hipocrisia da nossa sociedade.

Referências dos dados utilizados:
https://nacoesunidas.org/onu-mulheres-chama-de-escandalo-morte-de-23-mil-jo
vens-negros-por-ano-no-brasil/
http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-11/crise-provocou-desemprego-maior-entre-os-negros-diz-dieese
https://exame.abril.com.br/economia/o-tamanho-da-desigualdade-racial-no-brasil-em-um-grafico/
https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2017/A-pobreza-brasileira-tem-cor-e-%C3%A9-preta
https://www.cartacapital.com.br/sociedade/seis-estatisticas-que-mostram-o-abismo-racial-no-brasil